A Federação Nacional de Regantes de Portugal (Fenareg) vai presidir, nos próximos quatro anos, à Irrigants d’Europe, que reúne as principais associações europeias gestoras de água para a agricultura e que foi hoje constituída em Santarém. A Irrigants d’Europe integra, além da Fenareg, a Associação Nacional de Consórcios de Gestão e Tutela do Território Irrigado (ANBI), de Itália, a Federação Nacional das Comunidades Regantes de Espanha (Fenacore) e a Irrigants de France (França), que representam mais de 7,7 milhões dos 10,2 milhões de hectares de regadio existentes na Europa (75%).

José Núncio, presidente da Fenareg e da Irrigants d'Europe, afirmou, na cerimónia de constituição da associação europeia, realizada na Feira Nacional da Agricultura, que decorre em Santarém até domingo, que um dos principais objetivos é “conseguir um melhor diálogo com as instituições europeias”. Presente na cerimónia, o ministro da Agricultura, Luís Capoulas Santos, frisou a importância da criação de uma organização europeia, que, numa primeira fase, congrega os regantes dos países do sul da Europa e que vai ser presidida por um português, “no momento em que começa a negociação para a nova Política Agrícola Comum (PAC) pós 2020”.

Referindo o facto de a Europa do Norte estar “muito bem organizada” no trabalho de “grupos de pressão junto das autoridades decisoras no quadro da União Europeia”, o ministro afirmou que a organização dos países do Sul “não se tem revelado, nalguns aspetos, com a mesma eficácia”. Capoulas Santos apontou o “enorme preconceito de uma boa parte dos Estados membros da União Europeia” contra o regadio e defendeu como “fundamental” para Portugal e para os países do Sul que “as elegibilidades dos apoios financeiros ao regadio persistam para depois de 2020”.
“Foi tão difícil obtê-los na negociação da última reforma [que] é presumível que na próxima negociação as mesmas dificuldades venham a estar sobre a mesa”, disse, saudando a existência de uma organização como a que hoje foi constituída.

José Núncio apontou como objetivos da associação o assegurar “uma estratégia conjunta orientada para o aumento de regadio e das suas comunidades, que permita uma evolução da atividade, assente na gestão sustentável e na promoção e na competitividade do setor”.
O presidente da Fenareg e da Irrigants d’Europe lembrou que, segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação), “a agricultura de regadio representa apenas cerca de 20% da terra cultivada a nível mundial, mas contribui para 40% da produção agrícola mundial”. “Sem o aumento da produtividade agrícola que o regadio permite, seriam necessários pelo menos mais 500 milhões de hectares para produzir a mesma quantidade de alimentos”, afirmou, sublinhando a importância de uma agricultura sustentável na “resposta aos desafios das alterações climáticas e da segurança alimentar”.

“Por esta razão, é importante o desenvolvimento de uma estratégia europeia, a médio e longo prazo, com os meios suficientes que permitam acompanhar estas evoluções”, acrescentou.
A “Declaração de Santarém”, assinada hoje pelas quatro associações que integram a Irrigants d’Europe, afirma que, “enquanto aumenta a capacidade da ciência e dos agricultores na resolução de problemas relacionados com a rega, existe o risco de uma decrescente perceção da sua importância entre os cidadãos europeus”.

“Deve ser dada atenção a uma política da água para a área mediterrânica, com ênfase na inevitável necessidade de uma agricultura de regadio no sul da Europa, enquanto geradora de condições de fundo para um desenvolvimento harmonioso e sustentável de novas áreas de regadio na Europa Central, do Norte e Oriental”, que a associação agora constituída quer apoiar.
Fundada em 2005, a Fenareg tem 28 associados “que representam mais de 25.000 agricultores regantes e cerca de 135.000 hectares, que significa mais de 90% do regadio organizado, 76% do regadio coletivo público e cerca de 20% do regadio nacional”.