A escassez de água no Baixo Alentejo está a ter implicações graves nas culturas e no abeberamento dos animais, dizem os agricultores da região. Na zona do Campo Branco, por exemplo, já se recorre a cisternas móveis para transportar água para o gado. A falta de chuva também já levou a Câmara de Mértola a abastecer algumas localidades do concelho recorrendo a autotanques.

O chamado açude de Entradas, construído pela Associação de Agricultores do Campo Branco (AACB) numa das “principais ribeiras da zona”, a de Cobres, para reter a água destinada ao abeberamento dos gados em anos de seca, está “completamente seco”, quando, por esta altura, deveria “estar cheio”. Para o presidente da referida associação, José da Luz, este é um “sinal inequívoco de que as coisas estão muito complicadas” em termos de escassez de água. Nos restantes açudes edificados pela AACB no âmbito de um programa de apoio ao abeberamento dos efetivos pecuários dos seus associados o cenário é muito idêntico. “O ano passado já foi um ano difícil, porque tivemos uma primavera em que não choveu. E neste último inverno praticamente também não choveu. Os ribeiros, os barrancos, as charcas estão secos, o que é uma situação difícil tendo em conta que é uma zona de muita pecuária extensiva e os animais têm obrigatoriamente de beber”, porque disso depende “a sua sobrevivência”.

Perante a escassez de água, alguns agricultores do Campo Branco já começaram a recorrer à frota móvel de cisternas da associação para transportar água “dos furos”, também criados no âmbito do mesmo programa, “para as suas explorações de gado”, revela José da Luz, frisando que normalmente as cisternas “só saem para o campo no verão”. Este transporte de água, devido às distâncias, acaba por representar “um custo adicional muito grande” para o agricultor, “aumentando os custos da produção”. Uma das grandes preocupações da associação que engloba os concelhos de Almodôvar, Aljustrel, Ourique e castro Verde, num total de “900 explorações associadas”, é que “os lenções freáticos também se esgotam, porque não foram restabelecidos no inverno”.
Segundo as previsões da AACB, a situação irá agravar-se a partir deste mês, “quando o calor começar a apertar”, uma vez que “é muito difícil haver mudanças ao nível do clima que compensem o que se perdeu com a falta de chuva”.

E não será só na zona no Campo Branco, realça José da Luz, mas “em todo o Baixo Alentejo”, e “quanto mais para sul mais grave será o problema”.
“Aquilo que nos preocupa é daqui para a frente. Estamos a alertar para uma situação muito grave, que está à vista”, reforça o presidente, lembrando que em 1995, “um ano muito difícil em termos de seca”, foi criado um conjunto de medidas de apoio aos agricultores para “minimizar o problema”, nomeadamente para “abertura de captações de água, para aquisição de cisternas para transporte de água e para pagar aos bombeiros o transporte de água para os efetivos”.
A chuva “que possa vir ainda a cair, mesmo que seja benéfica para uma aveia, para um feno, já não enche o ribeiro, por isso terão de ser tomadas medidas para minimizar os custos que isto tem para os agricultores, como a abertura de uma linha de crédito bonificada”, conclui.

“Situação dramática” Numa das explorações da empresa Agro Vale Longo, em Montes Velhos, freguesia de São João de Negrilhos, Aljustrel, a seara de cevada dística “está pelo joelho, quando deveria estar pela cintura”. Mesmo estando a ser regada com recurso a água proveniente da albufeira do Roxo – que neste momento se encontra a menos de um terço da sua capacidade máxima, segundo a Federação Nacional de Regantes (Fenareg) –, “a falta de água no solo é tão grande que com os canhões de rega não conseguimos dar conta [da situação]”, diz João Banza, um dos sócios-gerentes. O empresário estima um decréscimo de “60, 70 ou 80 por centro” na produção de cevada dística prevista para a presente campanha, o que “é muito mau tanto para a empresa que adquire o cereal, como para a Agro Vale Longo, que fez o investimento e que não colherá produção”, diz.
“A água que estamos a usar do Roxo não vai recuperar totalmente a produção. Em vez de termos uma produção de três, quatro toneladas por hectare, o que seria o normal, provavelmente iremos ter duas toneladas por hectare. E se não regarmos, o mais provável é colhermos zero. Estamos neste momento provavelmente a chegar a uma situação de seca extrema”, esclarece João Banza, realçando que nas parcelas onde foi semeado girassol, e que ficam fora “do alcance dos canhões de rega”, “as plantas nem sequer nasceram” devido à fraca precipitação.
Antevendo uma situação de seca – “porque já não são tão esporádicas como eram há 30 anos” e porque em 2015 “também já tinha chovido pouco” –, os responsáveis pela Agro Vale Longo optaram, logo no início da campanha, por “culturas com menor consumo de água”, substituindo, por exemplo, “o milho pelo girassol”. Também aderiram “ao uso eficiente da água”, instalando sondas em todas as máquinas de rega, “que permitem medir a humidade do solo”.
Com explorações agrícolas em Serpa, Santa Vitória, Ferreira e Aljustrel, num total de 970 hectares (40 por cento arrendados), João Banza diz que as “situações mais problemáticas em termos de seca” se situam neste último concelho, porque os “solos são mais fortes, mais argilosos, sendo que necessitam de mais água”. “Quando falta água na argila ela estala e a terra ao abrir parte a raiz aos cereais. E se as raízes estão partidas, vir chuva ou não já não importa”, diz, frisando que as baixas reservas de água da albufeira do Roxo irão obrigar a um “transvase de água da barragem de Alqueva”. No entanto, frisa, o problema “é que provavelmente essa água será mais cara se não houver atenção por parte da EDIA – Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva ou dos órgãos que tutelam a gestão da água”. “O que se está a tentar é que o custo dessa água seja mais baixo do que se estava a pensar, porque é insuportável ir buscar água ao Alqueva, pagar essa água, e depois ter de pagar do Roxo para aqui. Ou seja, pagar a água duas vezes. O preço mais que duplica. Se assim for é melhor não regar, porque não compensa. E se o preço da água de Alqueva continuar alto teremos de arranjar culturas que consumam pouca água, como a papoila, a colza, o gão de bico regado”, diz o sócio-gerente, apontando como solução para os problemas decorrentes da seca “a criação de uma linha de crédito com o juro praticamente a zero, para que os agricultores não se afundem”.

“Esta é de facto uma situação dramática”, assegura, por sua vez, António Parreira, presidente da Associação de Beneficiários do Roxo (ABRoxo), a entidade que explora a albufeira. “O Roxo praticamente não tem água para regar, está a cerca de 30 por cento”, diz o responsável, adiantando que se não houvesse a possibilidade de entrar água vinda da barragem de Alqueva “seria um ano de grandes dificuldades e de grandes restrições para a rega”. Como existe essa possibilidade, “essa questão não se coloca, mas colocam-se outras”, acrescenta. E o primeiro problema é exatamente o preço da água de Alqueva, que ao que tudo indica “será mais do dobro do preço” que os agricultores estão a pagar pela do Roxo, a que acrescem custos com perdas “por evaporação e infiltrações”.
“De facto o transvase de Alqueva, que será feito pela primeira vez, é a única solução para não haver restrições de água e os agricultores continuarem com as suas culturas, que são, neste momento, maioritariamente plurianuais, como o olival e o amendoal, e que não podem ficar sem regar. São culturas que não se podem perder. E depois há outras recém-instaladas que se iriam ressentir muito ou até perder-se se não forem regadas, portanto, temos de fazer entrar água. Estamos a ver é se conseguimos criar um protocolo de entendimento, e estamos a trabalhar nesse sentido com a EDIA e com o secretário de Estado da Agricultura, para que a água tenha um preço que seja suportado pelas culturas que temos. No dia em que a água for demasiado elevada e que as culturas não suportem esse custo é mau para todos. Para o País que estará a produzir menos, para o Empreendimento de Fins Múltiplos do Alqueva que terá água que não servirá para nada e para os agricultores que não tirarão rendimento das suas culturas”.

António Parreira garante que “dentro do regadio ainda é possível recuperar as culturas”, resta saber é se haverá agricultores que optarão por não utilizar a água vinda de Alqueva, caso “o preço seja demasiado elevado, porque não irá justificar”.

Por outro lado, adianta o presidente da ABRoxo, “é necessário regularizar com a EDIA” a utilização do Roxo para fazer chegar água a um bloco, na zona de Rio de Moinhos, que é gerido pela empresa. “Essa água vai entrar no Roxo e vai ter de percorrer 10 quilómetros até chegar ao bloco, e é evidente que não podemos ser nós a suportar os custos dessa travessia”. Por último, António Parreira lembra que a empresa Águas Públicas do Alentejo “há anos que não paga” a água que capta do Roxo para garantir o abastecimento público das populações dos concelhos de Aljustrel e Beja. “E mais uma vez prepara-se para não pagar. São quatro milhões de metros cúbicos por ano e que estão a ser pagos pelos agricultores do Roxo”.

Mértola abastece aldeias e castro Verde encerrou fontanários No concelho de Mértola, outro dos que vive “um período de seca que se agrava em cada dia que passa sem chover”, a câmara municipal tem vindo desde finais de março a fazer “abastecimentos extraordinários” de água, “normalmente três a quatro vezes por semana”, a algumas localidades, nomeadamente Ledo, na freguesia de São João dos Caldeireiros.
“Durante todo o ano abastecemos algumas pequenas localidades em contínuo. Em período de seca os furos artesianos que abastecem toda a margem direita do Guadiana começam a falhar, e sempre que se deteta falta vamos transportar água, para encher a rede e o reservatório, para que não falte nas torneiras. Neste momento, e além de algumas pontuais, já estamos a transportar para a localidade de Ledo. É ainda transportada água para outras localidades, que são geridas pelo sistema da AgdA – Águas Públicas do Alentejo, embora ainda para poucas”, esclarece o presidente Jorge Rosa, frisando que se pararem “de levar água a Ledo ela deixa de correr nas torneiras, uma vez que o furo que abastece a localidade não consegue repor a água consumida”.
Francisco Belchior, 81 anos, um dos 56 habitantes de Ledo, não se lembra de a localidade ter sido alguma vez abastecida “tão cedo”. “Geralmente começam no verão, lá para agosto, setembro. Este ano começaram mais cedo”, diz o antigo trabalhador agrícola, lembrando que ao nível da agricultura as coisas também estão complicadas, com “falta de água a correr nos barrancos”. Numa propriedade vizinha, salienta, onde se “faz regadio, vinhas”, foram “obrigados a fazer furos para se governarem”, porque as barragens “não encheram”. “Tenho ouvido falar que não têm água para o gado, que têm estado a abrir furos para lhes dar de beber”, reforça Mariete Carlota, uma década mais nova que o vizinho Francisco.
Jorge Rosa lembra que a “situação que era crítica em todo o concelho deixou de o ser para a margem esquerda do Guadiana com a adução de água em alta a partir do Enxoé, para abastecimento humano”: “Deixámos de ter este tipo de problemas. Apenas a margem direita ainda é abastecida por furos. A solução passa por estender o abastecimento em alta também ao resto do concelho, desde a sede, para que deixemos de estar tão dependentes da chuva. Com a adução de água à margem direita também esta parte do concelho ficará ligada a uma reserva de água enorme, que aguenta alguns anos de seca, e que nos dá outro tipo de garantias de ter água nas torneiras”. De acordo com o autarca, esses investimentos irão avançar ainda este ano, “dentro do sistema da AgdA, ao qual o município de Mértola pertence”. Nas localidades mais distantes destas condutas em alta “a solução mais imediata será procurar novos locais para perfurar no sentido de encontrar água em quantidade suficiente para abastecer aquele povo”.

No que concerne à escassez de água para abeberamento da pecuária, o presidente já fez chegar as suas preocupações ao secretário de Estado da Agricultura, “para que seja criado um plano de contingência que faça face a estas graves situações, rapidamente, de forma a que não se agudize a situação, nomeadamente com a morte à sede de alguns animais”. “Julgo que todos ansiamos por chuva, que tarda em chegar. Estamos muito preocupados e certos de que a situação tem tendência em piorar. Mas tenho muita confiança neste ministério da Agricultura e estou certo de que brevemente estaremos a implementar medidas que auxiliem estes agricultores e produtores a ter água para manterem as suas explorações”.
Também em finais de março, a Câmara de castro Verde, tendo em conta “o período de seca que o País atravessa” e o facto “de em concelhos vizinhos já haver localidades a serem abastecidas por autotanques”, decidiu encerrar todos os fontanários públicos do concelho, com o objetivo de “reduzir os consumos públicos, não contabilizados e evitar desperdícios de água; consciencializar a população de que a água, sendo escassa, deve ser utilizada com ponderação, mesmo cada um de nós pagando aquilo que gasta; e a necessidade objetiva da existência de fontanários públicos, se teve a sua época histórica e desempenhou um papel importante no abastecimento público, hoje é meramente residual”, justificou o presidente da autarquia, Francisco Duarte.
Segundo o autarca, “não sendo preocupante, neste momento, o problema da seca, no que diz respeito ao consumo humano no concelho”, é uma realidade para a qual estão atentos, “sobretudo para os efeitos nefastos que poderão provocar na agricultura no nosso concelho”. Francisco Duarte reforça a ideia de que “a sensibilização da população para diminuir os gastos parece-nos um aspeto fundamental para minimizar os efeitos de uma seca, que não o sendo ainda, poderá sê-lo num futuro próximo. A margem de manobra é mínima, atualmente”.
Quanto aos níveis de água da barragem do Monte da Rocha, que abastece os concelhos de castro Verde, Ourique e Almodôvar e que neste momento está a 33,5 por cento da sua capacidade total de armazenamento, o autarca, “não sendo técnico da área”, diz que confia “plenamente nas informações” que lhe são facultadas pela AgdA (empresa que gere a distribuição de água ‘em alta’ nesta região) e que garantem não haver problemas”. “Estamos tranquilos, mas atentos. Não deixaremos de tomar medidas adequadas se e quando se revelarem necessárias”, conclui.

In "Diário do Alentejo"
Texto Nélia Pedrosa
Fotos José Ferrolho